Voltar
História da cidade

O baile que o mundo inteiro foi dançar: a noite em que o Tico-Tico nasceu em Santa Rita

Em 1917, numa festa no interior paulista, Zequinha de Abreu tocou pela primeira vez um choro sem nome. Décadas depois, ele se tornaria uma das músicas brasileiras mais gravadas de todos os tempos.

-

Era 1917. Numa das festas dançantes que animavam o interior paulista, em Santa Rita do Passa Quatro, um homem sentou ao piano e começou a tocar um choro que ainda não tinha título, letra, nem história. O salão foi tomado por uma animação que o próprio compositor não esperava. Impressionado com a reação dos pares, ele comentou, quase em voz alta: "Até parece tico-tico no farelo."

Ninguém sabia que aquela noite seria contada para sempre.

O FILHO DA CIDADE

José Gomes de Abreu nasceu em Santa Rita do Passa Quatro no dia 19 de setembro de 1880, filho primogênito do boticário José Alacrino Ramiro de Abreu e de Justina Gomes Leitão. A mãe queria que ele seguisse a vida eclesiástica; o pai preferia a medicina. Nenhum dos dois teve o que queria.

Desde cedo ficou claro que Zequinha — como era chamado desde criança — tinha outro destino. Aos seis anos já tirava melodias de uma flauta. Ainda no curso primário organizou e regia uma banda da escola. Com dez anos tocava requinta, flauta e clarineta. Em 1894, foi enviado ao Seminário Episcopal de São Paulo, onde estudou harmonia com o Padre Juvenal Kelly — e de onde fugiu três anos depois para voltar à Santa Rita e trabalhar na farmácia do pai. (Fonte: Enciclopédia Itaú Cultural — enciclopedia.itaucultural.org.br)

Em 1899, casou-se com Durvalina Brasil e foi morar no distrito de Santa Cruz da Estrela, próximo a Santa Rita, onde abriu uma farmácia, manteve uma classe de ensino primário e continuou compondo. De volta à cidade natal, fundou a Orquestra Smart, que animava bailes, saraus, casamentos e acompanhava filmes mudos no cinema local.

DO CHORO SEM NOME AO HINO UNIVERSAL

A première de 1917 foi o começo de uma jornada longa e improvável. O choro ficou sem nome por anos — até que, em 1931, precisou ser rebatizado para evitar confusão com uma peça de mesmo título do violonista paulistano Américo Jacomino, o "Canhoto". A música passou a se chamar "Tico-Tico no Fubá" e foi gravada em disco pela primeira vez naquele mesmo ano. (Fonte: Discografia Brasileira — discografiabrasileira.com.br)

Zequinha mal chegou a ver o tamanho do que tinha feito. Morreu em São Paulo em 22 de janeiro de 1935, aos 54 anos. Foi anos depois de sua morte que o Tico-Tico viajou o mundo.

Entre 1943 e 1947, a música foi incluída na trilha sonora de cinco filmes americanos: Alô Amigos (1943), A Filha do Comandante (1943), Escola de Sereias (1944), Kansas City Kitty (1944) e Copacabana (1947) — neste último, cantada por Carmen Miranda. A popularidade nos Estados Unidos levou a música a ser regravada por dezenas de artistas, de jazz a flamenco, de música clássica a bossa nova. (Fonte: Brasil de Longe — brasildelonge.com)

A letra em português foi escrita por Eurico Barreiros e Aloysio de Oliveira; a versão em inglês é de Ervin Drake. A música tornou-se uma das peças brasileiras mais gravadas de todos os tempos — e segue sendo executada regularmente em rodas de choro, trilhas de filme e salas de concerto em todo o mundo.

Pela Editora Irmãos Vitale, onde Zequinha encontrou o editor Vicente Vitale, foram publicadas várias de suas composições a partir de 1924. A mais famosa entre as valsas é "Branca", de 1918, dedicada a Branca Barreto, filha do chefe da estação ferroviária de Santa Rita do Passa Quatro — e que se tornaria um clássico do repertório pianístico do período. (Fonte: Enciclopédia Itaú Cultural)

O QUE FICOU NA CIDADE

Em 1952, a Companhia Vera Cruz produziu o filme Tico-Tico no Fubá, dirigido por Adolfo Celi e produzido por Fernando de Barros, com Anselmo Duarte no papel de Zequinha e Tônia Carrero no papel de Branca. O filme foi selecionado para o Festival de Cannes daquele ano — um reconhecimento internacional à altura da trajetória do compositor.

Em Santa Rita, a memória de Zequinha está em toda parte. A praça central leva seu nome. A Banda Municipal Zequinha de Abreu — fundada por ele em 1933, com 25 integrantes — ainda toca pela cidade. O Museu Histórico e Pedagógico, instalado na antiga estação ferroviária tombada pelo Condephaat em 1981, guarda seu acervo. E o Festival Zequinha de Abreu, realizado há mais de cinco décadas, reúne bandas de todo o país para uma homenagem que nenhuma outra cidade poderia fazer com a mesma propriedade. (Fonte: Academia Santarritense de Letras — acasale.com.br)

Quando você ouvir o Tico-Tico — numa roda de choro, numa trilha de filme ou no celular de alguém ao lado —, saiba que tudo começou aqui.

-

FONTES CONSULTADAS

• Enciclopédia Itaú Cultural — verbete Zequinha de Abreu (enciclopedia.itaucultural.org.br)

• Jornal GGN — "Os 135 anos de Zequinha de Abreu" (jornalggn.com.br)

• Discografia Brasileira (discografiabrasileira.com.br)

• Brasil de Longe — "Tico-Tico no Fubá" (brasildelonge.com)

• Academia Santarritense de Letras (acasale.com.br)

• Prefeitura Municipal de Santa Rita do Passa Quatro — verbete Zequinha de Abreu (santaritadopassaquatro.sp.gov.br)

• Wikipedia (EN) — verbete Zequinha de Abreu e Vassununga State Park (en.wikipedia.org)

Santa Rita do Passa Quatro fica a cerca de 230 km da capital paulista. Acesse o Visite SRPQ e descubra onde encontrar as marcas do compositor na Cidade Poema.